O desenvolvimento de smartphones levou a proliferação de aplicativos de softwares(app). O app é abreviação de aplicação, refere-se a programas capazes de funcionar em telefones móveis. A revolução móvel está oferecendo a sociedade uma oportunidade de autonomia, muitas vezes, sem apoio profissional quando e onde as pessoas mais precisam.

Atualmente há um grande número e variedade de aplicativos móveis voltados para treinamento físico existentes no mercado. A estimativa de 2012 coloca o número relacionado a saúde nada menos do que 400.000 aplicativos1. Muitos funcionam através de lembretes, ou seja, mensagem de texto para que os usuários realizem tarefas do cotidiano tais como: alimentar-se, tomar água, horário de treinamento físico, coordenar a gestão de uso de medicamentos, suplementos e etc.2

A tecnologia móvel está oferecendo intervenções sobre o exercício físico, mas possui suas próprias limitações e problemas potencialmente associados, ao que se refere especialmente a prescrição do treinamento físico3. O aspecto da tecnologia móvel na prescrição do exercício físico do usuário final será todo foco deste artigo.

ASPECTOS GERAIS DOS APLICATIVOS MÓVEIS PARA TREINAMENTO DE MUSCULAÇÃO

Os smartphones estão sendo fabricados por várias empresas. O setor que mais cresce na indústria da tecnologia é o fitness. Os sistemas operacionais dividem-se praticamente em três plataformas – Google Android – iOS da Apple e Windows Mobile.

A promessa inicial dos aplicativos voltados para o treinamento de musculação, é de fornecer aos seus utilizadores um plano de treino através de um custo mais acessível ou até mesmo gratuitamente. Embora seja perceptível a inexistência de um acompanhamento profissional em muitos destes dispositivos, visto que, o próprio usuário tem autonomia de roteirizar todo o programa de treino, além de acompanhar o progresso – se é que há alguma evolução – através de uma interface de dados. Notoriamente, podemos observar que os indivíduos estão buscando cada vez mais fazer exercício físico por conta própria, ou seja, através do auto treinamento e por indicação de pessoas não habilitadas, sem uma avaliação prévia de um profissional de Educação Física.

O procedimento de utilização dos APPS parece ser bastante convidativo, diante da praticidade e simplicidade. O utilizador cadastra através da tela inicial os seus dados pessoais (idade, sexo, altura, peso atual, peso que pretende atingir, data de nascimento, ativo fisicamente ou sedentário), além dos dados de composição corporal (medidas de circunferência e dobras cutâneas) e o objetivo almejado (emagrecimento ou ganho de massa muscular). E a partir destes dados, o treino é pré-definido e passível de modificação conforme o gosto do usuário. Algo bem semelhante as receitas de bolo, na qual é possível errar ou acertar no resultado final.

Ainda alguns destes dispositivos disponibilizam uma listagem com vários tipos de exercícios que contém animações, descrições e algumas “dicas” gerais sobre os grupos musculares do corpo humano – conforme podemos observar através da figura a baixo.

Print de um aplicativo para treinamento de musculação

Figura: Print de um aplicativo para treinamento de musculação

Este tipo de intervenção baseada na tecnologia ainda precisa passar por um aprimoramento, mas atualmente, não passa de uma futura promessa. A ideia inicial mostra-se ser bastante interessante, pois o utilizador poderia o seu treinador pessoal – personal trainer – na palma da mão, com um atrativo de melhor custo-benefício. No entanto, muitas vezes, ou em sua maioria isso não ocorre. Porque pessoas sem qualquer critério científico, estão desenvolvendo os aplicativos sem ajuda de um profissional qualificado capaz de nortear todos os parâmetros de uma prescrição deve conter. Além disso, os smartphones oferecem uma oportunidade sem precedentes para um feedback frequente e interativo, mediante restrição ao acesso imediato ao treinador.

PRESCRIÇÃO DO TREINAMENTO: APLICATIVOS MÓVEIS SÃO CAPAZES DE ENQUADRAR OS OBJETIVOS ALMEJADOS PELOS SEUS UTILIZADORES AOS REAIS APRESENTADOS?

   prescrição do treinamento

Como já foi explanado anteriormente, agora entendemos um pouco sobre o processo de análise e prescrição do treinamento de musculação que acontece através dos aplicativos moveis. Neste contexto o treinamento possui uma predefinição programada, simplesmente o aplicativo faz uma correlação dos dados pessoais de cadastro, da composição corporal e os objetivos estéticos almejados. Sendo que, o treinamento deveria ir muito além dos objetivos estéticos priorizados pelos usuários de dispositivos móveis, porque o treinamento de musculação também tem capacidade de proporcionar o tratamento e prevenção de patologias, além da melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Diante destes aspectos, alguns questionamentos bastantes pertinentes surgem. Como é possível ao desenvolvedor do aplicativo enquadrar o objetivo almejado ao real apresentado pelo utilizador? Como serão feitos os ajustes e manutenções da prescrição após os resultados obtidos com a predefinição do treinamento existentes nestes aplicativos?

Indiscutivelmente, ocorre a negligência na prescrição do treinamento que são oferecidos por aplicativos moveis. Esses dispositivos estão prescrevendo o treinamento sem a realização previa de uma avaliação física morfo-funcional. Esta conduta vai de confronto com as diretrizes preconizadas pelo American College of Sports Medicine (ACSM), que define a prescrição do treinamento físico todo o processo através do qual o indivíduo possa passar pelo estabelecimento de recomendações para um regime de treino sejam concebidas de forma sistemática e individualizada.

Antes de qualquer prescrição, o praticante de musculação – trainee – necessariamente precisa passar por avaliação física morfo-funcional criteriosa. Uma vez que, esta tem como propósito de ajudar a definir o objetivo real a ser alcançado, como também a melhor estratégia a ser adotada.

Além disso, periodicamente e sucessivamente há necessidade de reavaliações. Essas devem acontecer, a fim de verificar se houve a evolução quadro inicial do indivíduo, para que assim se possa nortear a reformulação de um novo programa de treinamento.

AVALIAÇÃO FÍSICA MORFO-FUNCIONAL: COMPONENTE IMPRESCINDÍVEL PARA A PRESCRIÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINO

Avaliação Morfo-funcional

A avaliação física morfo-funcional tem o objetivo traçar o perfil físico do praticante de musculação – trainee, serve para descobrir possíveis limitações, além de desempenhar um importante papel de feedback. Indubitavelmente, precisa ser realizada antes de qualquer prática regular de exercício físico e por um profissional de Educação Física capaz de interpretar corretamente os resultados dos mesmos.

Para uma melhor compreensão deste processo, precisamos classificar a avaliação morfo-funcional em oito categorias importantes: (1) Diagnóstica ou estratificação de riscos – refere-se a anamnese ou questionário específico referente a saúde do praticante. (2) Composição corporal – determina os componentes corporais, massa muscular, massa óssea, massa residual, massa gorda – percentual de gordura. (3) Neuromotora – testes neuromotores que determinam qualidades físicas importantes, como velocidade, força, flexibilidade e etc. (4) Cardiorrespiratória – testes físicos capazes de determinar o nível de condicionamento físico do indivíduo, determinam parâmetros importantes como volume de O2 e frequência cardíaca. (5) Somatotipo – Técnica de classificação física do corpo, tem como objetivo definir a característica corporal de um indivíduo. A estrutura física ser humano é dividida em três componentes: Endormorfia que se refere à adiposidade – Mesomorfia que se relaciona à musculosidade – Ectomorfia que se reporta à magreza. (6) Avaliação postural – imprescindível na prescrição do treinamento de força, porque através dela o profissional pode perceber desvios posturais e identificar padrões alterados de movimentos.  (7) Avaliação Médica – o trabalho em conjunto com médico proporciona ao educador físico a análise de exames clínicos – teste ergométrico, ressonância, raio x e fatores hemodinâmicos (Hormônios, Colesterol, Triglicerídeos e Glicose). (8) Avaliação Dinâmica – observação de movimentos globais e segmentares para analisar os agentes causais dos padrões alterados.

A partir de agora talvez seja possível ao utilizador compreender o porquê do programa de treinamento precisa ter como base as considerações de todos os itens anteriores, além de destacar a importância do profissional de Educação Física na prescrição do treinamento. Uma vez que, os aplicativos móveis não possuem parâmetros mínimos para a prescrição de exercícios de forma segura e eficiente. Sendo assim, a população de um modo geral, não deveria ter bons olhos para treinos prescritos por estes dispositivos.

METAS: OS APLICATIVOS MÓVEIS TEM CAPACIDADE DE DIRECIONAR O UTILIZADOR E DEFINI-LAS PARA SEREM DEVIDAMENTE ALCANÇADAS

metas

A fim de alcançar o sucesso no planejamento do programa de musculação, faz-se necessário definir metas, no caso dos apps, este item não se faz presente. Fazendo uma analogia, o utilizador de qualquer dispositivo parece muito com um navio no meio do mar à deriva, se chegar a qualquer lugar, será por mero acaso.

Estipular metas a serem alcançadas periodicamente é um grande problema para os desenvolvedores de dispositivos moveis. Justamente porque não existe ajuste individualizado, apenas trabalham uma pré-programarão já discutido anteriormente. O profissional de educação física – treinador pessoal, ou seja, personal trainer – tem a capacidade de estipular metas através da avaliação física, na qual dará parâmetros para identificar os reais objetivos do aluno, além do histórico de saúde e de atividade física. Se o aluno estiver devidamente apto para seguir o regime de treinamento físico, os dados coletados serão capazes de nortear a melhor estratégia para atingir o resultado que tanto o aluno almeja alcançar. Se por acaso, esse tem como principal objetivo melhorar sua composição corporal, principalmente desejado aumento a massa muscular, mas seu percentual de gordura encontra-se elevado, a priori não é o ideal momento para realização de um programa de treino voltado para hipertrofia.

Para exemplificar melhor este processo, um indivíduo em sua primeira avaliação foi encontrado a gordura corporal em torno de 38% e massa muscular em torno de 18% do peso corporal, é possível traçar como meta para avaliação futura 35% para massa gorda, e 22% de massa muscular. Você deve estar se perguntando como é possível este tipo de projeção? Nada é planejado aleatoriamente, dependendo do objetivo de treino, intensidade e duração além de, velocidade de execução, intervalo de recuperação, número de séries e número de sessões são alguns dos parâmetros para se acionar um sistema chamado de dispêndio energético. Esse sistema é definido pelos componentes do gasto energético diário que inclui a taxa metabólica basal, a termogênese dos alimentos e energia gasta com o exercício físico.

A manipulação adequada das variáveis do treinamento de musculação, permitem uma maior ou menor exigência do corpo para oxidação de substratos enérgicos para utilização durante o metabolismo. Em fases especificas, o treinamento poderá exigir menores e/ou maiores demandas energéticas para o objetivo almejado. Mais uma vez, o aplicativo não conduz o utilizador para metas alcançáveis, e sem o devido cuidado para a prescrição do programa de treino de acordo com estas diretrizes.

SOMATOTIPO: A PRESCRIÇÃO DO TREINAMENTO REALIZADA PELOS APLICATIVOS MÓVEIS DEVERIA SOFRER INFLUÊNCIA DO BIÓTIPO E DO PERFIL CORPORAL DO UTILIZADOR

 somatotipo

Cada biótipo possui suas características físicas distintas, e estas características são determinantes para definir o plano de treinamento, como também metas atingíveis e realistas para a sucesso dos resultados que precisam ser alcançados.

Nesta perspectiva, o somatotipo tem o objetivo de reunir as características físicas de cada indivíduo em perfis corporais denominados de endomorfia, mesomorfia e ectomorfia. Os indivíduos classificados como endomorfos são geralmente que apresentam cabeça larga e arredondada, pescoço curto e grosso, tórax grosso e largo, braços curtos, abdome largo, cintura ampla, glúteos grandes, pernas grossas e largas. Ainda possuem menos definição muscular e maiores possibilidade de acumularem gordura corporal periférica. Para este grupo em especifico, o treinamento é um pouco volumoso, tendo em vista elevar o gasto calórico, com mais repetições por series, mais dias de rotina de treino, menor intervalo de descanso, além de exercícios aeróbicos.

Indivíduos com características mesomorficas possuem maiores condições de definição muscular, estrutura óssea mais maciça, volume do tórax dominando sobre o abdome, percentual de gordura corporal baixa, portanto mais facilidades conquistar massa muscular. O treinamento deste grupo tem como prioridade potencializar ainda mais a tendência natural de ganho de músculos. Pode-se mesclar treinamento com exercícios básicos e como também exercícios isolados, além de técnicas de intensificação como super series, drop sets, series negativas, roubada, e outras técnicas avançadas de treinamento.

Já os indivíduos com características ectomorficas sinalizam perfis mais magros com tórax aplainado, pernas e braços mais longos, com segmentos finos, portanto longilíneos. No treinamento para ectomorfo os exercícios básicos ganham prioridade, pois há necessidade de ativação e estimulação da massa muscular em conjunto. O número menor de exercícios e series devem ser realizados, além de menos repetições por serie. Visando uma sobrecarga através da tensão do que pelos fatores metabólicos.

Parece tudo tão simples? Certo? Não necessariamente. É preciso também entender que a estrutura física de cada indivíduo se dar através da combinação destes três somatotipos. Dessa maneira, a prescrição do treinamento de musculação não pode ser realizada sem analise corporal do praticante, embora para qualquer objetivo seja imprescindível a análise dos somatotipos, sendo assim determinantes para volume e intensidade de treino5.

CONCLUSÃO

No geral, a realidade virtual e as inovações tecnológicas inserem os praticantes de musculação para o auto-treinamento. No entanto, os aplicativos moveis só deveriam uma ferramenta desenvolvida para auxiliar o trabalho do profissional de educação física. Sem uma avaliação física criteriosa o exercício físico deixa de ser benéfico e torna-se prejudicial ao utilizador de aplicativos moveis. Pois, faz-se necessário enquadrar os objetivos almejados aos reais apresentados pelo utilizador, como a padronização da prescrição do treinamento os resultados não ocorrem de forma satisfatória e eficiente. Além disso, o utilizador desconhece a relação entre a má postura e a vulnerabilidade à lesões, as alterações posturais e os desequilíbrios musculares, os aspectos da biomecânica através da tensegridade, o posicionamento da cabeça e do corpo nos exercícios. E por fim, o barato pode sair muito caro. Contrate sempre um profissional de educação física qualificado, só ele pode lhe dar as diretrizes ideais para um programa de treinamento seguro e eficaz.

REFERÊNCIAS

  • Boulos MNK, Brewer AC, Karimkhani C, Buller DB, Dellavalle RP. Mobile medical and health apps: state of the art, concerns, regulatory control and certification. Online Journal of Public Health Informatics. 2014;5(3):229.
  • Ozdalga E, Ozdalga A, Ahuja N. The Smartphone in Medicine: A Review of Current and Potential Use Among Physicians and Students. Eysenbach G, ed. Journal of Medical Internet Research. 2012;14(5):e128.
  • Pellegrini CA, Duncan JM, Moller AC, et al. A smartphone-supported weight loss program: design of the ENGAGED randomized controlled trial. BMC Public Health. 2012;12:1041.
  • ACSM (1998). The recomend quantity and quality of exercise for developing and maintaining cardiorespiratoty and muscular fitness, and flexibility in healthy adults. Position stand. Medicine and Science in sports and Exercise, Vol. 30 (6), 975 – 991.
  • BOMPA, T.O. Periodização: teoria de metodologia do treinamento. Traduzido por Sérgio Roberto Ferreira Batista. São Paulo, SP: Phorte, 2002

Leave a Reply